Facebook dirá aos usuários quais sites e aplicativos usam seus dados e lhes permitirá apagar essas informações

Mark Zuckerberg, nesta terça-feira em San José. MARCIO JOSE SANCHEZ AP

“Este ano foi intenso. Não parece que só foram quatro meses. Vamos garantir que ninguém use mal nossa plataforma. Sou otimista. Vamos fazer com que seja usada para fazer o bem.” Assim começou Mark Zuckerbeg sua participação nesta terça-feira na conferência F8, dedicada a abordar o futuro da rede social por ele fundada e dirigida, o Facebook, que está imerso em uma enorme polêmica mundial pelo uso incorreto que fez dos dados de seus usuários.

Minutos antes, a empresa havia anunciado por um comunicado que está construindo um novo controle de privacidade chamado Clear history (“limpar o histórico”) para permitir aos usuários eliminarem a possibilidade de que sites e aplicativos lhes enviem informação com base em seus dados. “Se algo aprendi ao testemunhar no Congresso é que não temos sido suficientemente claros nas respostas a perguntas sobre gestão de dados. Estamos trabalhando para que o controle volte para vocês. E logo haverá mais novidades”, disse o fundador da empresa no palco do centro de convenções de San José (Califórnia). Em seu ano mais difícil, falou cercado de desenvolvedores de aplicativos associados com sua plataforma.

Zuckerberg voltou a apresentar sua versão mais técnica, falando rápido com algumas pausas para risos, buscando a cumplicidade e vestido de modo diferente do habitual: mudou a camiseta cinza por uma azul-marinho de manga comprida.

No comunicado que comenta a nova estratégia, o vice-presidente de Privacidade do Facebook, Erin Egan, explica: “Escutamos comentários constantemente de pessoas que usam o Facebook, que defendem a privacidade e uma maior regulação; todos deveriam ter mais informações e controle sobre os dados que o Facebook recebe de outros sites e aplicativos que usam nossos serviços”. O comunicado chega depois dos abalos que a empresa sofreu nas últimas semanas após o vazamento maciço de dados de pelo menos 87 milhões de usuários do Facebook no escândalo da Cambridge Analytica. O caso obrigou Zuckerberg a comparecer diante do Congresso dos Estados Unidos para dar explicações.

“Hoje anunciamos planos para criar o Clear history. Esta característica permitirá que vocês vejam os sites e aplicativos que lhes enviam informações quando são usados, eliminar esta informação de sua conta e desativar nossa capacidade para armazená-la associada à sua conta no futuro. Os aplicativos e os sites que usam funções como o botão Curtir ou o Facebook Analytic nos enviam informações para melhorar o conteúdo e os anúncios. Também usamos estas informações para melhorar sua experiência no Facebook”, explicou o fundador em um post de sua página (declarações que repetiu na conferência).

O usuário, segundo explicou o Facebook, poderá com o Clear history remover a informação que o identifique para que sites e apps não a associem a sua conta. “Levará alguns meses para criar o Clear history. Trabalharemos com defensores da privacidade, acadêmicos, legisladores e reguladores para obter opiniões sobre nosso enfoque, incluindo a forma como planejamos eliminar a informação de identificação e os casos em que necessitamos de informação por motivos de segurança. Já começamos uma série de mesas redondas em cidades de todo o mundo e escutamos demandas específicas para controles como estes em uma sessão que tivemos em nossa sede há duas semanas. Estamos ansiosos para fazer mais”, acrescentou a empresa.

Um serviço de encontros

No plano mais frívolo, o Facebook mostrou duas novidades. Uma é o Watch Party, para ver vídeos com amigos, momento em que Zuckerberg fez uma brincadeira com seu comparecimento no Congresso em Washington: “Sei que muitos de vocês combinaram de ver e comentar”.

A outra questão é que o Facebook está obcecado com a fuga de usuários, por isso a abertura do Marketplace, para frear os anúncios verticais de segunda mão. Seu novo espaço a conquistar serão os encontros. O Facebook Dating quer competir com o Tinder de uma maneira mais suave e com o toque naif dos ícones. “Queremos que o Facebook seja um espaço para relações com sentido. Em breve chegará a todos”, revelou, embora não tenha esclarecido como serão utilizados os dados dos usuários para que esses encontros sejam relevantes;

Dentro do aplicativo de encontros serão propostos eventos, grupos e temas para começar a conversa de maneira suave. A troca de mensagens privada será separada do restante das conversas com amigos de cada perfil.

Também foi dada atenção a duas de suas aquisições mais importantes: Instagram e WhatsApp. O primeiro terá videochat. O segundo, uma dor de cabeça em muitos aspectos, acaba de ver seu fundador, Jan Koum, dizer adeus. Zuckerberg enfatizou o estado em que chegaram: “Não tinham uma criptografia e possibilidades como agora”. O WhatsApp também terá chamadas de vídeo em grupo.

Zuckerberg quis comprar o Snapchat quando era um serviço emergente. Não houve acordo. Então começou a derrubada adotando seu mecanismo de uso. As Stories, como batizaram a essa duvidosa inspiração, se tornaram a melhor fidelização no Instagram. Zuckerberg afirmou que vão estimular sua adoção em todo seu ecossistema.

A Oculus foi sua última comporá, sua entrada na realidade virtual. Depois de vários testes com celulares da Samsung, por fim lançaram uma versão para todos os públicos, o Oculus Go. Sai por 199 dólares (690 reais) nos Estados Unidos e 219 euros (919 reais) na Europa. Não é necessário usar um smartphone ou computador para entrar em universos paralelos.

Os polêmicos votos a favor e contra estão mais perto de chegar ao Facebook. Chris Cox, um dos diretores mais próximos do fundador, disse que não vão ficar só na Nova Zelândia, onde estão sendo testados.

Trabalhar com o Facebook

A irrupção do Slack, um chat de acompanhamento de tarefas, no mundo do trabalho criou um campo interessante para mais competidores. Desde a Microsoft com uma renovação em seu pacote de aplicativos a propostas minimalistas como o Asana. O Facebook quer somar-se com o Workplace, que começou a ser promovido há dois anos, com pouca aceitação por causa do preço.

Nesta nova tentativa foi criada uma versão grátis e outra paga, com mais opções. Durante a F8 se anunciou a integração com serviços de notícias como Reuters, Bloomberg e Business Insider para compartilhar informações de interesse para os profissionais dentro de seus grupos. O Workplace, cujo preço não foi detalhado, se concentra em três ideias: compartilhar melhor as informações, ficar por dentro das novidades e de mudanças, daí a integração com agências de notícias.

Outro dos pontos em favor é que contam com ferramentas para modular o nível de acesso e quem tem acesso a que tipo de conteúdo. A ambição de Zuckerberg é fazer desta ferramenta um substituto da intranet em lugar de um mero chat.


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